segunda-feira, abril 27, 2015

25 de abril - Sempre não é Demais!

Comemoramos, no próximo dia 25 de abril, os 41 anos do "dia inicial inteiro e limpo", o dia libertador em que os militares revoltosos colocaram um ponto final no estado a que tínhamos chegado, após 48 anos de uma ditadura marcada pelo obscurantismo, pela negação da liberdade de associação, pela repressão, por uma guerra que ceifou milhares de vidas humanas. Homenageamos neste dia, também, o cumprimento do dever de desobediência dos milhares de portugueses que, por todo o país, saíram imediatamente para a rua, apoiando as acções militares e garantindo o carácter revolucionário do derrube do fascismo e da alteração institucional que se seguiu, materializada na Constituição da República aprovada em 1976.
41 anos após esse dia não é demais lembrar que, se hoje temos consagrados o direito a uma democracia política, à segurança social, saúde e educação universais, o devemos aos valores em si inscritos.

Comemorar o 25 de abril não é um exercício de demagogia, de colocar o cravo na lapela à hora marcada e evocar conceitos gerais de redenção, em discursos floridos - que, pelo seu caráter geral, cabem em qualquer boca! Comemorar o 25 de abril é lembrar 41 anos de resistência ativa dos trabalhadores portugueses; é lembrar que os direitos e os deveres que ainda temos a nós os devemos; é lembrar que as liberdades e garantias que a forma da Revolução encerra é o inimigo principal daqueles contra quem a Revolução se fez, tendo-os atacado desde a primeira hora: degradando, lei a lei, governo a governo, mais às escuras ou mais às claras, o que conquistámos com sacrifício (tantas vezes manchado a sangue).
Num momento em que, 41 anos depois, trabalhamos mais e mais horas, recebemos menos pelo nosso trabalho, pagamos mais por serviços que perdem qualidade (e que, muitas vezes, nos negam), em que vivemos a incerteza do dia de amanhã - do médico para quando estivermos doentes à escola para os nossos filhos, ou à reforma para o nosso cansaço -, comemorar o 25 de abril é um acto de Liberdade! Esquecer esta data, por outro lado, é legitimar o roubo a que somos sujeitos, é aplaudir a corrupção que rodeia as privatizações ou o financiamento da banca, é achar normal o desemprego e a emigração, é dar espaço a que, quando todos falam em crise, os ricos continuem a enriquecer e os remediados engordem os números dos pobres.
"25 de Abril, Sempre" não é uma palavra de ordem vazia - a realidade confirma que Abril não é demais! Comemorar o 25 de abril é lutar! E ser solidário com todos os trabalhadores em luta - lutar com todos e por todos! A Revolução que comemoramos tem como responsáveis todos os que lutaram por ela e que a defenderam. O "estado a que chegámos" tem os seus culpados - juntos, iremos derrotá-los e faremos Abril de novo!
excerto de PCPinforma CM/SMAS

segunda-feira, março 16, 2015

Sonho de um dia de greve

Sexta-feira houve greve da função pública! Teve o sucesso devido (de vidro?!), justificado pelo momento e as perspectivas futuras, que justifica o empenho de milhares de ativistas sindicais e o sacrifício dos trabalhadores portugueses.

Ninguém faz, hoje em dia, greve porque sim. O exercício deste direito é toldado pelo medo - o político, de represálias; o medo de tirar salário ao salário cada vez mais curto... Ser displicente com a greve e os grevistas revela soberba (motivada ideologicamente, por incapacidade de se ver para além da sua própria realidade ou pelos dois motivos juntos); ser displicente com todos os que furam a greve, por outro lado, é também não compreender a raíz do medo que o motiva.
Mas há sempre os "engraçadinhos" - os que, cinicamente, dizem "luta lá por mim", na lógica do "vão sem mim que eu vou lá ter", para receber, educado e pronto a sair de casa, o filho dos direitos conquistados (preservados...) - sem preocupações, sem arrelias, sem sacrifícios. E esses dão-me pesadelos.

Na sexta-feira tive um pesadelo. "Pesadelei" que, por artes mágicas (com varinhas de condão, elfos, unicórnios e simbologismos à Merlin), os sacrifícios dos que, por dedicação e vontade, se sacrificaram, tinham consequência - reposição dos salários; horário laboral que permitisse a conciliação de trabalho, lazer e descanso; férias devidas; avaliação justa, racional e estruturada; progressão na carreira condizente com as capacidades. Os outros, os que maldizem os sindicatos e os seus representantes, mas também os que, no fundo de si, se envergonham de furar uma greve (mas que o fazem amiúde), perdiam, paralelamente, os direitos conquistados - até ao início da Revolução Industrial, pelo menos. Imaginem: viver num mundo em que era vergonhoso desdenhar de uma greve porque chegamos tarde ao emprego; onde já ninguém dizia que "o Dia da Mulher é quando um homem quiser"; onde já não fizesse falta "outro Salazar". Há neste pesadelo uma justiça de Antigo Testamento! Mas, de certa forma, uma justiça, ou não enchessem a boca de Grécia clássica os que aludem ao berçário do poder do povo, feito de escravos e senhores. É um pesadelo o Direito dual, em qualquer circunstância histórica - mesmo que, pessoalmente, me beneficiasse.

Felizmente o mundo ultrapassou a fase em que matar o próprio filho era sinónimo de dedicação aos espíritos-santos. E todos os trabalhadores, com ímpetos grevistas ou não, são beneficiados com as conquistas que, ainda, vão resistindo - e sê-lo-ão, com as que forem (re)conquistadas! Infelizmente, quando acordei, a dedicação aos Espírito-Santo continuava secularmente testamentada pelos Cavacos, Coelhos e Portas desta vida, com dilúvios sem barca e dalilas como cabeleireiras. Irão para o museu, sem necessidade de Messias.

A realidade exige muito à insónia!

Vai lá vai, até o Barack Obama!!

Um artigo decente necessita de um título decente - essa é uma assumpção de qualquer romancista, novelista, contista, poeta ou jornalista nas horas vagas. A minha eloquência esgotou-se, enfim, quando citei Rimbaud para dizer que a "moral é a debilidade do cérebro", num post que escrevi há uns anos atrás.
Considero, ainda, que não tenho idade para numerar artigos, à falta de criatividade para inventar novos títulos. É a tal "debilidade do cérebro", mesmo que de moral apenas tenhamos a preguiça ou, de tempos a tempos, a falta de tempo. É isso: falaria de debilidade, se já não tivesse falado disso antes e o corpo não estivesse esgotado pelo realismo dos tempos. Um brinde à anomia! Vivas à boçalidade! Progresso fora! Morte à humanidade! Sejamos, por momentos, a mudança que dispensamos no mundo - o reflexo no espelho do inverso da inteligência!
Peço desculpa a quem ofendi ou ofenderei.
 
O mundo, isso... este elipsoide feito de carbono e minerais, evoluindo continuamente por sua própria inspiração até parir, sem blues, a versão conservadora e totalitária dos Estados Unidos da América! Naturalmente, com deus a seu lado, a evolução da explosão redunda numa comunicação compassiva com a hegemonia global desta potência e o derrube de tudo o que a ponha em causa.
Falaremos de outra coisa ou é preciso ir buscar os lápis de cor? O aprofundamento do império exige a asfixia das alternativas - até as posicionais, à falta de ideológicas com escala suficiente -, razão porque vale tudo, até a estupidez (ah, falhei no contorno ao cítrico vocábulo!) e o obscurantismo - dois conceitos que na liquificadora da geo-política se fundem alegremente em fascismo. E é isto que é incentivado - do ISIS à Ucrânia, do Brasil à Grécia, da ALBA à China - a mesma ingerência estúpida, obscura, fascista e, por isso, desumana; e, por isso, assustadora, porque é possível dialogar com as raízes da convicção, mas os ramos enxertados da argumentação fanática só se retiram do ambiente com machadadas no tronco. E o passado também é presente.

A discussão das situações internas de todos os países ou regiões que sofrem dessa ingerência merece outra discussão. Este não é um artigo sobre justiça e injustiça, este é um artigo sobre debilidade - veja-se a foto acima... Brasil, 15 de março de 2015 (este link alarga o espectro da coisa). Débil é todo aquele que se enreda na sua fragilidade até ao ponto de perder a noção de si, de si no cosmos e do ridículo em si. Dizer que o Brasil (uma potência capitalista!) é comunista é tão sensato como reivindicar à nossa a nacionalidade divina (só que a segunda até tem piada!) - bradá-lo é tão legítimo como decapitar jornalistas estrangeiros (não, não tem piada). É a essência do fanatismo.
 
No reflexo do espelho do inverso do fanatismo está a luta política, as dinâmicas de classe e o progresso social; a antítese da liberdade é o obscurantismo; a luta pela ética (caráter) é a suprema e até esta guerra é amoral (do ISIS à Ucrânia, do Brasil à Grécia, da ALBA à China, etc, etc).

E o que é que isto tem a ver com o título?

segunda-feira, outubro 27, 2014

Luto.PT

 Oposição à imagem utilizada pela oposição da Dilma,com a bandeira em B&W e a expressão "Luto".
 Decorreu ontem, no Brasil, a segunda volta daquelas que foram as eleições mais disputadas dos últimos anos. Ganhou a Dilma, com uma margem relativamente curta e com uma divisão regional evidente, como se esperava. Por interesse internacionalista, ligação emocional ao Brasil e porque, durante este processo, escrevi, li, discuti e envolvi-me (ainda que de forma sutil) nos contornos desta eleição, queria aqui deixar o meu contentamento com esta eleição, enquanto expressão de:

1) Derrota da direita, do conservadorismo moral e do liberalismo económico - não o contentamento com a vitória de uma "esquerda moderada", sustentáculo do rosto maquiado de um capitalismo predador, que em 12 anos de PT fragilizou os direitos trabalhistas, aprofundou a depleção ecológica, reforçou a concentração de terras e capitais, aumentou a carga fiscal a trabalhadores e PME's (fala-se da carga fiscal de um país desenvolvido com a distribuição típica de um país em desenvolvimento);

2) Valorização das políticas públicas que promoveram uma maior inclusão, com reflexos nas alterações estruturais na sociedade brasileira e no aumento geral da qualidade de vida das populações, conforme demonstram as estatísticas internacionais. Programas de acesso a habitação, formação superior e capacitação profissional, de proteção social, são expressão de uma lógica de promoção da equidade que não deve ser desprezada - mesmo que, em certos aspectos, se resuma a um assistencialismo que em nada contribui para promover a autonomia;

3) Manutenção e reforço dos blocos políticos internacionais (como a Mercosul e BRICS), que se afiguram como alternativa às instituições internacionais que têm distribuído dependências pelo mundo. Manutenção, ainda, de uma lógica de ligação privilegiada com a América do Sul e Caribe - mesmo sabendo que essa relação tem por base uma lógica de alargamento e afirmação em novos mercados, mais que a solidariedade com o desenvolvimento integrado da região;

4) Evidenciação dos campos sociopolíticos. O que ganhou esta eleição foi a política, mais que o jogo das circunstâncias; foi a militância, mais que a massificação do marketing. O pior da expressão política da oligarquia evidenciou o melhor da militância da coligação - a direita tinha tudo para ganhar e perdeu porque hesitou (entre a Marina e o Aécio) e porque a esquerda, acossada, se mobilizou a tempo.
Não houve, nos últimos 12 anos, uma distinção política tão objetiva. Quem ganhou não foi o resto de oligarquia que ainda apoia o PT, nem foram os dependentes dos programas sociais, mas o movimento, a organização - logo, a reivindicação de base, as propostas mobilizadoras, a valorização do trabalho feito. A oposição faz uma campanha intensa, mas sem propostas, só com agressão, com anátemas, obscura, hipernegativa.
Há, desde já, uma grande preocupação com a unidade do Brasil, face à polarização eleitoral - mas não se pode tratar de forma igual o que é desigual, logo há que assumir as aspirações da afirmação política da esquerda que ganhou as eleições e não viver com medo do que a desinformação pode dizer. Dilma deve fazer o que Lula não fez, porque a definição política que a elegeu não lhe vai dar espaço de manobra.

5) Promoção de uma democracia mais ágil, na linha legislativa já apresentada (que valeu ao PT a acusação de sovietização da política brasileira, mas que é, na essência, análogo ao caminho que a União Europeia, por exemplo, percorre, da criação de instrumentos participativos que respondam à crise da democracia representativa). Promoção de alterações ao sistema político, de forma a promover a governabilidade, sem retirar legitimidade democrática. E que o Brasil não entre na brincadeira equivocada da alternância, substituindo os mesmos pelos mesmos, mas que possa construir alternativas. É caricato ambas as candidaturas terem a "Mudança" como lema, e ouvir-se reivindicar a necessidade de alternância, quando a primeira não é sinónimo da segunda;

6) Ética. Contra uma campanha imoral. A direita baseou a sua campanha real na lógica anticorrupção, mas sem conseguir apagar o seu historial de corrupção. A campanha foi, por ação da direita, uma conversa de WC para ver quem tinha a corrupção maior. Em desespero, e intensamente, valeu tudo. E não, não pode valer tudo. É uma exigência ética que a informação eleve a inteligência, que a opção tenha fundamento. "PT Fora!" era o início, o meio e o fim do argumentário pro-Aécio. No caminho apelava-se a golpe de estado, defendia-se a ditadura militar, xingavam-se os nordestinos, os pobres, os pretos, os beneficiários dos apoios sociais, mandavam-se as pessoas para Cuba ou para a Venezuela (na lógica, tão fascista, do "Brasil, Ame-o ou Deixe-o"). Soluções para o Brasil? A negação de tudo.
As opções respeitam-se. Com as diferenças discute-se, dialoga-se. Às agressões... reage-se. A militância política soube ser maioritariamente ética, mesmo quando o PT no poder não o foi; o fanatismo "PT Fora!", com o caminho aberto pelos erros do PT e pela campanha mediática, não conseguiu contrariar essa militância, porque foi moralista com telhados de vidro, bélico com pólvora seca, negando as evidências ao mesmo tempo que não atacava o que poderia, evidentemente, ser atacado. O vídeo seguinte é uma caricatura amarga desse princípio.


A Dilma, encabeçando uma coligação larga e, em certos sentido, paradoxal, ganhou. Felizmente para o Brasil. A partir deste momento, é lutar, no Brasil, de Portugal ou de qualquer lado do mundo, por um Brasil à esquerda, mais inclusivo, soberano, equitativo, mais participativo e mais ético. Lutar, contra a Dilma, se for preciso, por um Brasil mais desenvolvido.

quarta-feira, outubro 15, 2014

eraumavez.PT.



Era uma vez um país como os outros, onde a vida se desenvolveu como tinha de ser, com clima adequado às suas latitudes, que foi colónia de quem podia, que foi império dentro de casa, república das frutas que merece, ditadura civil e militar, hoje democracia civil e como se quer, com pobres e ricos mas mais pobres que ricos, enfim, como eu disse, um país como os outros.

Era uma vez um país como os outros, habitado de norte a sul e de oeste a leste, com cidadãos uns mais que outros, partidos políticos à esquerda, partidos políticos à direita, muitos partidos políticos de coisa nenhuma que é outra forma de ser de direita, muita gente contra os partidos políticos por serem todos iguais que é outra forma de fazer com que nada mude, um país com imprensa livre para escrever aquilo que as administrações das empresas donas da imprensa definem, e empresas de sondagens, e empresas de marketing, e muitas pessoas inteligentes que dizem aos cidadãos e aos cidadãos um pouco menos que os outros se devemos comer chocolate ou beterraba, qual a moda da estação, se votamos rosa ou azul (vermelho nunca!), o que temos de dizer para parecermos, à saciedade, pessoas inteligentes.

Era uma vez um país como os outros e nesse país como nos outros eu tenho uma posição, uma ambição, uma visão do que pode esse país como os outros se vir a tornar. Nesse país governou muita gente, como noutros países. No meu país, também governaram muitos governos e, era uma vez, esses governos contribuíram para muitos crescimentos – dos impostos, do desemprego, da emigração, da pobreza, da insegurança, da desesperança. Imagino se no meu país, nos últimos 12 anos:
- O PIB tivesse triplicado, assim como o PIB per capita;
- Os lucros das três entidades financeiras públicas, passassem de 184 milhões de euros, 367 milhões e 667 milhões de euros, respectivamente, para 2,7 mil milhões, 5,3 mil milhões e 2,23 mil milhões de euros;
- A produção agrícola tivesse praticamente duplicado, passando de 97 milhões de toneladas para 188 milhões;
- O investimento estrangeiro tivesse crescido mais de 380 por cento, as reservas internacionais aumentaram mais de 1000 por cento e a proporção da dívida face a estas tivesse passado de 557 por cento para 81 por cento;
- O total de empregos criados tivesse passado de 627 mil para 1,79 milhões, anualmente, contribuindo para a queda do desemprego de 12,2 por cento para 5,4 por cento;
- O número de falências tivesse caído cinco vezes, o salário mínimo passou de 66,7 para 241 euros (praticamente duplicou a capacidade aquisitiva de bens do cabaz básico), e a inflação média anual tivesse descido de 9,1 por cento para 5,8 por cento;
- Existisse um programa Universidade Universal a entregar 1,2 milhões de bolsas de estudo e os estudantes do Ensino Superior passassem de 583 mil para mais de um milhão;
- Existisse um programa de capacitação técnico-profissional que envolvesse seis milhões de pessoas, e uns programas Direito à Casa e Direito à Luz que beneficiam 1,5 milhões de famílias e 9,5 milhões de pessoas, respectivamente;
- Tivessem sido criadas quase 6500 creches, contratados 14 mil médicos beneficiando 50 milhões de pessoas, e 22 milhões de pessoas tivessem sido arrancadas da miséria extrema;
- Os indicadores de desigualdade social tivessem caído 11,4 por cento, a taxa de pobreza passou de 34 por cento para 15 por cento, e a de pobreza extrema de 15 por cento para 5,2 por cento;
- A mortalidade infantil tivesse passado de 25,3 por mil para 12,9 por mil, os gastos públicos em Saúde tivessem passado de 9,3 mil milhões para 35,3 mil milhões de euros, e os em Educação de 5,7 mil milhões para 31,3 mil milhões de euros;
- As comarcas de justiça central tivessem passado de 100 para 513 e as operações da polícia central de 48 para quase 1300.

Imaginar que no meu país, com a devida diferença de números, isto tivesse acontecido nos últimos 12 anos, deixa-me com um sorriso. Talvez por isso, nos últimos anos, era uma vez, tanta gente do meu país foi para esse e outros países iguais aos outros. 
Deveria existir um universo com matemática poética e umbigos de gelo. Aí a estatística cantaria e a demagogia seria tão abjeta como o preconceito.

Diria a história, se ela falasse por voz própria, que as sociedades caminham para a equalização. No meu país há uma linha torta nesta escrita, um passo atrás no que diria a história, se ela falasse por voz própria. No outro país de era uma vez, não sei se alguém escreve certo, mas as estradas dão a quem a percorre o sentido do sentido que daqui a alguns anos se dará ao caminho. O que é certo? Certo é valermos pelo que fazemos e não pela qualidade do colchão em que nascemos; certo é buscarmos a independência e recusarmos os impérios, mesmo quando são os nossos; certo é um homem ou uma mulher poderem recusar ser escravos; certo é culpar a exceção, não a regra; certo é ter em cada homem um irmão, que defendemos independentemente da sua posição de classe, de credo, de ideologia ou da quantidade de erros que tenha cometido; certo é não julgarmos o universo pelo tamanho do nosso umbigo. Deveria existir uma Declaração Universal da Ética Humana, que dispensasse de uma vez o conceito de tolerância; que sublimasse a arrogância do certo e do errado. Mais que uma declaração dos direitos: era uma vez o direito à concentração de arrogância travestida de ações da NASDAC e de dívida privada assumida publicamente com carimbo do Fundo Monetário Internacional, perante os quais todos os outros direitos não existem – esta é a história com que nos deitamos todos os dias.

Nestas coisas do deve e do haver, todos errámos. Um país como os outros, partidos como os outros, pessoas como as outras. Todos erramos. Nem se coloca a questão de quem errou mais ou menos – errar é errar. Era uma vez um país e uma eleição. Discutem-se projetos, discute-se um futuro. Diria a história, se ela falasse por voz própria, que as sociedades caminham para a equalização, mas é raro o caminho fazer-se a direito – o que não é a mesma coisa que retroceder.

Era uma vez um país como os outros, que não voltou atrás. É com esta história que quero adormecer dia 26.

quinta-feira, agosto 29, 2013

I have a dream

"I still have a dream, a dream deeply rooted in the American dream – one day this nation will rise up and live up to its creed, 'We hold these truths to be self evident: that all men are created equal.' I have a dream . . ." Martin Luther King Jr, 1963

Hoje que se comemoram 50 anos sobre o belo, o intemporal, o mítico discurso de Martin Luther King, no término da Marcha dos Direitos Civis, penso que o mundo mudou muito, nestes 50 anos. Mudou muito...

Penso, também, no lírico comentário jornalístico que escutei no telejornal da RTP e que me ficou colado à indignação durante este tempo - a jornalista talvez procurando um remate que poeticamente se equivalesse ao conteúdo do discurso - referindo que "o sonho se concretizou". Ingenuidade? Como adjetivei, lirismo? Longe de mim podar a liberdade jornalística, mas em nome do respeito e compromisso que dedico à luta histórica pelos direitos civis, dos homens e mulheres de todas as cores, credos ou ideologias, em nome desses homens e dessas mulheres, e em nome desse sonho, entendo que deveria ser criada a figura do Provedor do Enquadramento Histórico.

Eu até entendo que a jornalista em questão, que eu não consigo identificar, ainda está extasiada com o efeito Obama. Ela, como tantos outros: "Pronto, aconteceu!, o homem é preto, cumpriu-se a profecia - Hossana! Hossana! Aleluia!! Podemos ir para casa descansados...". Até porque, socorrendo-me da figura do Provedor por mim criada, o sonho do Obama - não fosse o caso de ter andado desatento com qualquer coisa - foi assinalado na notícia seguinte, fato que exigia, mas agora próximo, muito próximo, do primeiro presidente estadunidense negro, a presença do dito Provedor!

Para que conste: não gosto de armas químicas e chateiam-me as pessoas que as têm. Passa-se o mesmo com as nucleares e em geral desconfio de quem carrega algo com um impato mais massivo que uma faca de cozinha.
Mas: onde é que já vi isto antes? Afeganistão? Iraque? Líbia? Em sonhos? Felizmente, dizem, o ataque à Síria vai ser cirúrgico e rápido - "um ou dois dias" -, incidindo nas instalações onde essas armas são produzidas. Felizmente, outra vez vez felizmente, os mísseis estadunidenses são tão poderosos e precisos que duvido que, nos escombros, descubram vestígios de armas químicas! Um sonho de operação...
Mas, meu caro Provedor do Enquadramento Histórico (que bom é ter alguém em quem pôr as culpas!), o que costuma acontecer depois? Ah.. pois é! Vi na notícia a seguir que hoje no Iraque houve um atentado que matou 60 traba-
lhadores; e que as coisas no Egipto, ui!, não andam bonitas. E que, há uns meses, os franceses tiveram que ir ao norte do Mali buscar as armas (químicas?) que tinham emprestado aos libertadores líbios que afinal parece que não eram assim tão líbios; e que já se discute o que vai acontecer com as armas que o "ocidente" ofereceu aos libertadores sírios que parece que nem são assim todos tão sírios; que alguns observadores da ONU não têm tanta certeza assim sobre quem tem as armas químicas, mas que a decisão será rápida e precisa; que as coisas se tornam, globalmente, muito perigosas; que nada melhor que uma Guerra Mundial para relançar a economia. Ah, pois é...

Hoje, especialmente, também tenho um sonho e quero dizer que tenho um sonho. Um que não envolve nem imbecis nem imbecilidades de qualquer espécie - jornalística, militar ou política. Nem armas químicas.

terça-feira, junho 04, 2013

Reflexões sem Referências

Vivi e visitei várias cidades criativas; entendo, do alto da minha suburbanidade, que a cidade onde comecei a crescer era uma cidade criativa. Da pessoa criativa diz-se ser aquela que selecciona a informação de modo a criar fórmulas inovadoras que respondam a determinadas questões - resolve, portanto, problemas científicos, estéticos ou "correntes" através de soluções disruptivas com as práticas até aí utilizadas.
Uma cidade criativa é aquela que não só permite a criatividade, mas que a incentiva. A cidade onde existem espaços e tempos dinâmicos, pontos de encontro, diversidade cultural, apelos à criatividade.

Dialeticamente, o humano estabelece com o meio interacções que influenciam as suas vivências e as suas opções. Numa contemporaneidade marcada pela individualização e uma reflexividade densa de informação e anómica, o processo criativo perde o seu substrato.
Não entendo a criatividade como rasgos geniais e tiradas de momento, mas como um processo trabalhoso, que surge num contexto propício ao seu aparecimento. Recuso a imagem do indivíduo isolado que arrota um Eureka por cada nova solução; aceito o trabalho solitário e introspectivo, claro, mas o processo criativo deve ser relacional, potenciado pelo ambiente em que o indivíduo se insere, viver de interinfluências, de vivências, que criam pensamento, conceito, crítica, dúvida, afirmação, reformulação, exposição e inovação. A criatividade, a inteligência ou a expressividade são intrínsecos dos indivíduos, independentemente do seu lugar de classe ou do contexto onde vivem. É um dever da sociedade exponenciar essas caraterísticas.
Não entendo também as cidades como aglomerados urbanos, mais ou menos próximos do céu, feitos inorganicamente para empacotar pessoas nos seus lugares, com equipamentos mais ou menos belos plantados à espera de utilidade, à espera que o tempo e o espaço se cumpram. As cidades são seres orgânicos, feitas de gente, moldando gente. São o seu governo, as suas instituições, as suas dinâmicas. Sofrem, na sua organicidade, com a gestão que delas se faz. Morrem sem participação, sem continuidade da história, sem cultura; extinguem-se sem criatividade. É um dever da sociedade gerir a cidade de modo a que nada nela morra sem plausibilidade.

Comecei a crescer numa cidade criativa. Uma cidade com momentos e com espaços que apelavam à criatividade - ruas cheias de amigos, bandas em cada garagem, bares com bebida barata, escolas com projectos fora da escola, meses disto, quinzenas daquilo, semanas daqueleoutro. Apelo à criação, à participação, à ocupação da vida. As pessoas conheciam-se, influenciavam-se, reconheciam-se, convidavam-se, viviam-se. Continuo a crescer nessa cidade, depois de ter passado por outros lados. Acho que cresço pior - menos criativo e mais sozinho. As pessoas à minha volta perderam o hábito das coisas novas, de procurarem coisas novas, de assumirem a coragem de fazer coisas novas. Parecem tristes e estão a partir. E eu com elas, claro!
Quem tem o poder sobre as cidades? Temos todos, pois sim... Mas quem as gere, quem pode esculpir todo este complexo orgânico onde vivemos? Não são as pessoas preocupadas em pagar as contas, não são os comerciantes com as casas já vazias, não são as coletividades soterradas nas suas dívidas e falta de coletivo - é o governo das cidades que pode mudar ou matar de vez as cidades, pois é ele que tem o poder e os meios, uma maior resiliência ao risco e maior tempo para o tempo que é preciso, a obrigação máxima de criatividade, para que se possam criar os espaços e os momentos que promovam contacto, aprendizagem, aglutinação, vontade, solidariedade, criatividade, inovação, sustentabilidade, participação e, como corolário, democracia.

Será esse, talvez, o grande desígnio para resgatar a polis à dormência: a conquista da criatividade! Cidades de homens e mulheres que se sintam cultos e capazes serão cidades com tradição e com um futuro de liberdade.