quarta-feira, junho 06, 2012

“A moral é a debilidade do cérebro.”


Se podíamos precocemente abandonar a escrita e o corpo, para sermos despojos de nós mesmos numa cave perdida na cidade? Não serei Rimbaud, mas serei mais eu ao escutá-lo, no pó levantado da inquietação que me perspaça.

Ansiava entrar na Casa Conveniente. A minha curiosidade era fotográfica e já não se conseguia satisfazer com a fotografia, os 10 metros que nos separam 10 horas por dia eram uma distância que tinha que vencer. E anteontem venci-a. Para me ver vencido. Pela Virgem Doida, um espectáculo de Mónica Calle.

Não se entra e senta. Entra-se, assustamo-nos, hesitamos, a nossa confiança é abalada pela figura que se nos apresenta, sentamo-nos tacteando a cadeira – uma eternidade que não acaba refastelada, a inquietação mantém-se, e mantém-se, e mantém-se, no ciclo contínuo que dura uma noite, e só se desvanece quando, cansados de nós mesmos, abandonamos a Casa para procurarmos sossego.

Rimbaud foi precoce e intenso em tudo o que em Rimbaud é significativo, e isso magoa. A Virgem Doida dói, no seu despojamento. Um abandono ritmado, peça a peça, na roupa que se veste e na roupa que se despe, no pó levantado que espreita por entre a luz dos projectores, dos contrastes nas formas, das palavras musculadas, nos músculos retesados feitos palavras – sem melodia, uma zona de guerra entre deus e o diabo, com a mulher e o homem desfeitos, assumidamente, mas de cérebro intactamente insano, assumidamente. Condensados, no limite, nuns olhos e numa voz que nos humaniza despojados.

E, talvez porque perdemos a moral, saímos de lá com vontade de pensar.

sexta-feira, junho 01, 2012

Relvas desejou "felicidades" à selecção...

... e a meio do jantar descansou a comitiva, tomando a iniciativa de prometer à equipa técnica a disponibilização de toda a informação pessoal disponível sobre as equipas adversárias e os árbitros, bem como facilitar os momentos de lazer e descontracção da equipa das quinas, com todos os segredos provados de Balsemão e Ricardo Costa.

O inefável Relvas aconselhou, ainda, Cristiano Ronaldo a evitar, neste período, manter encontros com Irina, suspeita de acções de espionagem e de ter uma relação com Putin, algo que poderia por em causa a prestação do craque e a compra de gás natural a preços minorados.

A selecção parte hoje para Lisboa, para preparar o particular com a Turquia de amanhã.

Mais notícias no período da tarde.

terça-feira, março 27, 2012

Vamos ao Teatro!


Passa mais um ano, mais um Dia Mundial do Teatro, e nisto dos dias mundiais lembro-se sempre daquelas pessoas que dizem "ah, para mim todos os dias são dias mundiais de...". 
É verdade! 25 de Abril Sempre!, Dia do Trabalhador são todos para quem é trabalhador, e da Mulher talvez devessem ser mais, mas existirem dias em que nos sentamos para reflectir sobre cada um destes temas, permitir que essa reflexão alimente a vontade de colocar em todos os dias os valores dos dias que são mundiais e nacionais por alguma razão, tem a razão exactamente de voltarmos a esses valores, como que a aprimorar a Ética. As pessoas que dizem "ah, para mim todos os dias são dias mundiais de...", recusam (?) o fetichismo mercantilista que desvirtua a essência destes dias, que é uma essência de afirmação, mas esquecem-se também dessa essência e encerram-se sozinhos na sua critica (ou, ligando à anterior interrogação, sozinhos sem crítica).

Neste Dia Mundial do Teatro, não vou lutar pelo Teatro sozinho. O Teatro, como a cultura em geral, é património de um território, faz parte e constrói uma história, é componente fundamental da estrutura de um povo - por isso magoa vê-lo abandonado à sua sorte, sem o apoio e o incentivo de todos nós (Estado), sem uma educação de base que crie públicos, sujeito a pintar retratos a mecenas - situação tão Renascentista! - apenas com a cara que têm os mecenas, ou seja, só a fazer aquilo que quem dá o dinheiro (que é privado, não somos todos nós) quer!

Deixo, aqui, a mensagem do Dia Mundial do Teatro de 2012, escrita pelo grande John Malkovich:

“Fico honrado por o ITI – Instituto Internacional do Teatro – me ter pedido para fazer este discurso comemorativo do 50º aniversário do Dia Mundial do Teatro. Vou então dirigir estes breves comentários aos meus companheiros de teatro, meus pares e meus camaradas.
Que o vosso trabalho possa ser apaixonante e original. Que ele possa ser profundo, comovente, contemplativo, e único. Que ele nos ajude a reflectir sobre a questão do que significa ser humano, e que esta reflexão seja guiada pelo coração, sinceridade, candura, e charme. Que consigam ultrapassar a adversidade, a censura, a pobreza e o niilismo, que muitos de entre vós serão obrigados a enfrentar. Que sejam abençoados com o talento e rigor para nos ensinar sobre o batimento do coração humano, em toda a sua complexidade, e com a humildade e curiosidade que faça disto o trabalho da vossa vida.
E que o melhor de vós próprios – porque só poderá ser o melhor de vós próprios, e mesmo assim apenas em raros e breves momentos –  consiga definir a mais fundamental questão ‘como vivemos nós’ ?
Desejo sinceramente que o consigam."

Agora, vamos ao Teatro!

quinta-feira, março 15, 2012

Como regressando de uma viagem de regresso, ou como um dia eu queria escrever sobre uma viagem de regresso de onde não pensasse voltar


A lânguida serenidade do rio. Como um avô que nos olha, que nos anima, que está lá.

Avô, tenho saudades dos dias que nunca me deste, e não morreste e eu sinto tanto a tua falta. E sinto falta dos dias que me deste, desse caminho que percorro de comboio, nesta paisagem, neste caminho que demora, neste sentir que chego a casa, mesmo quando recuso a casa, mesmo quando não me sinto bem quando estou - a verdade é que quando começo a chegar tudo me faz sentido no caminho, como se aprendesse tudo o que não aprendi neste tempo, como se desaprendesse a distância em que vivo, o tempo que não tenho, o voltar que não me inspira nada quando penso que tenho que voltar. Avô, eu sou isto. Mesmo sem nunca te ter tido, és tu que me ensinas a voltar a casa.

O rio. Este mar dos pequenos de que fugi, mas que me percorre lágrima a lágrima. Quando choro chamo-me Tejo. Sem foz, por isso o rio em mim é cascata. Um Tejo pequenino, feito só de memória, gota-a-gota. E quando rio, quando eu me rio, chamo-me o nome de quem me chama - Tu aí, com licença, boa tarde, amor – há quanto tempo não Amor. O rio passa-me em maré cheia, no sentido norte, o meu olhar perdido num tempo que passou. Ruína a ruína, o rumor antigo das fábricas, a sirene que já não toca, fábrica a fábrica, abandonadas de trabalhadores, de suor, de exploração sentida mas pronta a rejeitar, a Vila abandonada de economia, eu recordo-me de passar aqui e de ver entrar os trabalhadores. No meu tempo, há trinta anos, eram felizes, era o tempo que ainda cheirava a auto-gestão, era o tempo do salário constante, do décimo terceiro mês, do décimo quarto mês, da certeza da reforma, do trabalhar para nós e para todos, era o tempo em que a sirene tocava e eles eram felizes, quantas vezes ali aprendi a felicidade, quantas vezes ao passar ali eu senti que a felicidade era ouvir aquela sirene, era cumprir os nossos filhos quando os nossos filhos passavam ali, a felicidade era chegar à construção, ao edifício, senti-lo orgânico sem o saber vivo, sentir que o tempo que se passava ali era um tempo de futuro.
O presente deste caminho é feito de ruínas. A felicidade ficou nas ruínas.

Avô, porque nunca me contaste histórias? Eu nasci, tenho cinco anos, tenho dez anos, tenho desasseis anos, tenho trinta anos e tu nunca me contaste histórias. Partiste e outros me foram contado histórias, dispersas, como avôs a termo certo. Histórias tuas, também, de heroísmo ou de cobardia conforme concordavam ou não com as tuas opções, conforme olhavam para as tuas acções, como se interpreta uma fotografia – tu com barba e de bóina, revolucionário, acho eu que por circunstância. Porque nunca me falaste disso? Agora corro atrás de ti, sigo a linha do comboio, sigo o rio. O rio sujo que colocavas nas mãos em concha, enganando-me, dizendo que era limpo e que me fazia recordar a memória contada por outros dos tempos que nunca me contaste em que nadavas para a outra margem no turbilhão dos golfinhos. Corro atrás de ti, seguindo o leito do rio, o ritmo do comboio, o fluir das palavras.
Estas palavras, avô. Corro contra o tempo, porque quero contar-te a minha história.

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

A Luta Continua!

Republico um texto que escrevi há 5 anos. Hoje cumprem-se 25 anos da morte do Zeca e 30 anos de vida do Amândio. A Luta Continua!

"Faz hoje, dia 23 de Fevereiro de 2007, 20 anos da morte do homem que, sem dúvida, representa uma das maiores expressões de um artista que junta a sua voz à voz do povo, que defende e que agita esse povo, que lhe dá esperança e força para lutar. Para mim, quando, em qualquer circunstância, a voz do povo se levanta para lutar pela Liberdade, por qualquer progresso histórico da sua existência, a voz que oiço na minha cabeça é a voz do Zeca Afonso.

Deixem-me partilhar com vocês uma história, uma das memórias mais vivas da minha infância. Há vinte anos atrás, levantei-me de manhã como era normal, para ir para a escola. Lembro-me de ver a minha mãe a chorar, um choro estranho - acho que nunca lhe tinha visto aquele choro. Perguntei-lhe o que era e ela disse-me que tinha morrido um amigo dela, que tinha sido um senhor muito importante, algo que fui percebendo ao longo do dia. Segui o dia com uma atenção infantil: ir para a escola, voltar da escola, saber que os meus pais não iam estar em casa quando eu voltasse porque iam ao funeral do Zeca, esperar que eles voltassem, ouvir os comentários que faziam entre si sobre o funeral. A imagem que tenho do funeral do Zeca vem desse dia, todas as primeiras imagens que tenho do Zeca vêm desse dia, das biografias que se sucediam na televisão, as primeiras músicas que aprendi fora do repertório do Prof. Barata Moura foram do Zeca, algumas (arrisco dizer) decoradas nesse dia de há vinte anos.
Desculpem o sentimentalismo, mas o dia 23 de Fevereiro de 1987 foi o primeiro dia triste da minha vida consciente. Guardei essa tristeza a vida toda, mesmo quando a maioria dos dias foram e são felizes. Desde pequeno que fico com vontade de chorar quando canto o Grândola - foi um hábito que guardei da imagem de um Zeca de cravo vermelho na mão, rodeado de gente, lembrando que "o povo é quem mais ordena", imagem que me marcou muito antes de compreender a significância do verso, do Zeca, da gente que o rodeava, do cravo vermelho num punho erguido.
Até confesso uma coisa: a capacidade de chorar ao ouvir a música do Zeca foi usada até para fins menos honestos, digamos assim - quando era preciso provocar o choro, uma lágrima de arrependimento, qualquer coisa assim, traulitava mentalmente o Grândola e lá conseguia a atenuação da pena que me ia ser aplicada! Bem, mas na maior parte das vezes, emocionei-me em momentos mais nobres, quase todos de luta.

Bem, a descrição que fiz não é alegre. Mas esta evocação não pretende ser triste - a vitalidade eterna da música do Zeca Afonso só pode encher de alegria as nossas casas e as nossas ruas! Morreu o homem, a obra sem dúvida que ficou e se expande, nas obras de outros, na vida e nas lutas de todos nós.

Hoje é também um dia importante por uma motivo mais alegre - o Amândio faz anos, uns 25! Um grande abraço de parabéns para ele, "amigo maior que o pensamento"!"

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

Vacuidades

Pois que a vida não cabe num post e graças ao senhor que não. De que vale partilhar, neste espaço, as nossas opiniões, emoções, planos e expectativas, se nem somos considerados na décima divisão do Combate de Blogs?
Eu respondo, ainda; proponho, pois; ambiciono, portanto - este é o espaço da sistematização, da disciplina, da organização do pensamento posto em palavras - do que espero fazer bem... um dia.

Tudo mais, não são vacuidades. Porque não são só minhas.

Quantos dias depois do último post? Sei mais que quero de matemáticas e, em homenagem a isso, respondo por passadas. Um espectáculo a estrear no grupo comunitário da Arrentela, uma viagem a S. Tomé, um beijo no corredor de casa, o reconhecimento de que o amor é o beijo a seguir ao abraço e tudo o mais abaixo será quanto muito o abraço a seguir ao beijo, agarrar Os Generosos e ter a audácia (vácua?) de dar um passo que não sei se sei, dormir pouco porque não quero, acordar mal porque não consigo acordar bem, esperar que o meu tio Tonica recupere rápido e bem, sonhar sair e cimentar o ficar, catapultar o voar e ansiar a geofagia, caminhar com mais de 300 mil pessoas contra o roubo que me (nos) fazem todos os dias, pensar que há-que esticar a corda para ver melhor o que aí vem e em como é que vamos fazer para esticar a corda, sobreviver (porquê ainda?) ao inverno de Lisboa.

O mundo muda e eu tenho tudo a ver com isso. Só não o partilho, ainda. Com medo de vacuidades, com falta de tempo, com sono. E com inveja, mas não ainda do Combate de Blogs...

Sobre tudo isso, darei de mim aqui. Aos poucos, quando me apetecer ou puder.

sábado, janeiro 14, 2012

Ascensão e Queda da Cidade de São Cifrão

Ascensão e Queda da Cidade de São Cifrão, que fui ontem ver ao Teatro Extremo em Almada, é sobre o pior do ser humano.

Ergue-se uma cidade liberal, uma cidade do paga-leva, de whisky, mesa, boxe e cama, uma cidade sem preocupações, uma cidade sem regras, sem leis, de se fazer o que se apetece. É a base do segredo desvendado da felicidade humana! Desde que se tenha dinheiro para pagar...

Em São Cifrão esse é mesmo o pior crime - não ter dinheiro. Crime maior que seduzir, cantar canções alegres ou apostar num amigo que morreria nessa sequência. Crime de morte.

Não conhecendo o original de Brecht, a adaptação do Jorge Feliciano e do Teatro Fórum de Moura é a alegoria da nossa sociedade de consumo rápido, de crédito rápido, de gasto rápido, no sabor férrico do velho oeste de gatilhos rápidos. O enlevo do dinheiro, que nos rodeia, que nos seduz, que nos leva a utilizá-lo sem limites e que depois nos amarra, nos espezinha, nos despreza.
Ascensão e Queda da Cidade de São Cifrão é sobre o pior de nós. É sobre a venda da amizade, a venda da solidariedade, é sobre a venda do amor, a venda do carácter... É sobre hoje, em Portugal e no mundo.

Por isso vale a pena ir ver esta produção. E pela encenação com pormenores deliciosos, pela cenografia do Pedro Penilo, pela qualidade dos actores, dos quais destaco o Luís Mouzinho, e porque ver Brecht "à Brecht" é um prazer raro, nos dias que correm.

Um apontamento para um apontamento: "O Teatro não é só Entretenimento". Não é. Mas não é assim que os nossos governantes encaram o Teatro, a cultura... Ou eles não o encaram de todo - por muitos livros que escreva o secretário de estado e muitas árias que cante o primeiro-ministro no coro. O Teatro Fórum de Moura, que eleva a história e o bom nome da descentralização do teatro, vai sofrer este ano com o desinvestimento na cultura. A maioria dos grupos de teatro, amadores e profissionais, vai sofrer com essa política. Facto que, enquanto agentes teatrais, tem que merecer a nossa solidariedade, amizade e unidade. Para estes governantes, nacionais e globais, Moura, Vila Franca, Almada, ou Tondela, não merecem teatro. Teatro só em Lisboa e no Porto - e esse, só pago.
Como em São Cifrão, curioso...