terça-feira, outubro 18, 2011

OP como em Cascais

Não querendo "bater mais no ceguinho", mas "até um cego vê" que o processo OP VFX tem pressupostos errados, ocorrências manipulativas, visões enubladas. Se o objectivo é promover a participação pública, as posições da autarquia têm sido contraproducentes, lesivas da perspectiva que entende que é necessária uma maior participação, um menor isolamento do poder - que poderá não ser a da Sra. Presidente, o que é legítimo, mas é a de muitos autarcas nacionais e, pasme-se, é a da ONU. A população de Vialonga classificou o processo como "inútil" e eu não podia estar mais de acordo. Vila Franca não é Lisboa nem é Cascais, mas também em termos de OP não tinha de ser diferente apenas para pior.

quarta-feira, setembro 28, 2011

Sobre o Orçamento Participativo em Vila Franca de Xira

O anúncio de um processo de Orçamento Participativo (OP) no concelho de Vila Franca de Xira (VFX) poderá, a priori, entusiasmar aqueles que, como eu, defendem outro modelo de gestão da “coisa pública”, mais participativo e, na senda efectiva de uma abordagem que respeite a etimologia: mais democrática.
A democracia de carácter representativo em que vivemos veio dar resposta às necessidades de uma “sociedade comercial”, cujo objectivo corresponde à tomada de decisões pragmáticas no contexto da complexidade da governação, maximizando-se a responsabilidade política e minimizando as possibilidades de participação (1). A democracia representativa cria, assim, cidadãos privados, focados nas preocupações privadas do emprego ou da família, afastados, portanto, das instituições, dos conceitos e das políticas e práticas que constituem a estrutura e a dialéctica do que se convenciona como Democracia (a que conhecemos como tal e que tão violentamente exportamos). Mais do que a verbalização popular exageradamente generalizante do “eles são todos iguais”, ou “os políticos são todos uns ladrões”, é na estatística associada ao acto representativo por excelência – o voto! – que se percebe este afastamento, verificando-se, entre 1976 e 2011, um aumento da abstenção de 16,47% para 41,97% (2).
Esta realidade, além dos problemas de legitimidade sistémica, cria disfuncionalidades que toldam a cidadania, diminuem a capacitação cidadã no contexto dos processos de sociabilização e, como corolário, promovem a exclusão social. Segundo o Banco Mundial, “… [a] baixa participação e as desigualdades sociais estão tão ligadas entre si que uma sociedade mais equitativa e humana requer um sistema político mais participativo” (3).
Falar, portanto, de participação pública, ou do aprofundamento participativo dos processos democráticos das sociedades ocidentais contemporâneas, é falar de reconhecer que a complexidade das relações societais não se resolve apenas em sede de representação, mas com a participação dos indivíduos e organizações que corporizam essa complexidade. Em última instância, a deserção popular inspira a autocracia, enquanto a participação fortalece a democracia.

Conscientes das ambiguidades associadas ao desenvolvimento humano, diversas instituições globais têm promovido programas e projectos cujo enquadramento se sustenta na participação pública e na promoção de uma democracia mais participativa, mais eficaz, equitária e sustentável. São exemplos desses programas o OP ou a Agenda 21 Local (A21L), processos que a Câmara Municipal (CM) de VFX afirma promover.

No entanto, se se considerar que a concertação está para a democracia participativa como o voto está para a democracia representativa (4), as práticas assumidas de participação têm tido perspectivas que, muitas vezes, mais que concertar, ou assentar numa base clara de partenariato, servem para legitimar as opções dos decisores, ou seja, encontram-se nos níveis mais baixos da escala de Arnstein (a escala de Arnstein (1969) define oito níveis de participação - Manipulação, Terapia, Informação, Consulta, Apaziguamento, Partenariato, Delegação de Poderes e Controlo Cidadão). Com efeito, segundo Dalal-Clayton, “nos países industrializados, as agências governamentais seguem com frequência o que Walker e Daniels (1997) chamam de modelo dos 3I: informar (o público), invite (comentários) e ignorar (opiniões)” (5).

A experiência da participação pública em VFX vem exactamente no sentido desta consideração. Os processos recentes de participação pública aquando da Revisão do PDM e da A21L, assim chamados, são paradigmáticos da tendência para ignorar os seus resultados, ao mesmo tempo que, como Pilatos, a autarquia lava as mãos das eventuais acusações de não promover a participação cidadã. No primeiro caso, optou-se por um modelo de abordagem passiva, com sessões públicas devidamente institucionalizadas nas intervenções políticas oficiais e do público (maioritariamente daquele público cujo capital político o aproxima do oficial), na teia da informação técnica e na formalidade dos actos de estar presente e intervir – tendo existido a participação, não só nas sessões públicas, mas também nas propostas endereçadas por outras vias, quantas e quais dessas propostas foram consideradas? No segundo caso, após um processo de auscultação aos presidentes de junta e após onze sessões de participação activa (utilizando metodologias de envolvimento que implicavam a participação de todos os presentes) em todas as freguesias do concelho, foram priorizados diversos problemas, apoiados em acções concretas para os resolver – mas o que aconteceu a essas acções, a esse processo?
Nos dois exemplos mencionados, a ideia de participação e o capital de esperança depositado pelas populações nesses processos foram completamente desperdiçados. No final da tese de mestrado que escrevi sobre a A21L em VFX, comentava: “Em Vila Franca de Xira ou em qualquer outro lugar do mundo, quebrar o processo é não encarar o futuro” – claramente quem gere os destinos de VFX ignorou o caminho que construía através desse processo…

Tendo apoiado a realização de um OP, não só enquanto técnico da CM que fui mas também enquanto eleito municipal, ao constatar o modelo e a forma como este processo iria ser iniciado no concelho, não me consegui entusiasmar. OP é, por definição, “um mecanismo governamental de democracia participativa que permite aos cidadãos influenciar ou decidir sobre os orçamentos públicos, geralmente o orçamento de investimentos de prefeituras municipais, através de processos da participação da comunidade” (6). Numa leitura linear, bem, entre a definição e a prática, VFX e a grande maioria dos municípios portugueses que implementam o OP serão pioneiros da participação e do envolvimento cidadão na gestão da “coisa pública”! No entanto, “influenciar ou decidir” o quê?
O processo proposto de OP em VFX, para quem não conhece, é “deliberativo condicionado” (7), ou seja, assenta em propostas do município, que serão priorizadas pelos votantes. Traduzo: a CM diz aos interessados que tem estes projectos em carteira, os quais, não podendo ser todos realizados em 2012, terão que ser priorizados – e aí entram os interessados, priorizando! Os projectos propostos são:
- Em Alverca do Ribatejo: Requalificação da zona a tardoz da Rua 9 de Agosto; Requalificação da Praceta da Cabine;
- Em Póvoa de Santa Iria: Requalificação da Rotunda dos Caniços; Requalificação do Espaço frente ao Parque Infantil da Urb. Tágides Park;
- Em Vialonga: Requalificação do espaço a tardoz da Rua Olival Santo e Rua Manuel Inácio Braga; Reconversão do antigo Parque Infantil do Morgado em zona de estadia e lazer
- Em Vila Franca de Xira: Requalificação do antigo parque infantil do parque Residencial de Povos; Requalificação dos espaços exteriores nas traseiras da Rua Egas Moniz junto à Escola Prof Reynaldo dos Santos.

Mais do que a perversão do processo de OP, há a constatação da própria perversidade do sistema: segundo os nossos representantes, os problemas de VFX existem apenas nas chamadas zonas verdes ou de lazer, como se pode ver pelos projectos propostos. Num processo de participação real, não sei se alguém se iria lembrar de mencionar sequer qualquer um destes projectos como prioridade… “Influenciar e decidir”, participar, não é escolher qual é o projecto que um determinado vereador vai inaugurar primeiro!
Mesmo o argumento propagado da falta de tempo para organizar um processo de OP que se reconhecesse como tal, não convence nem compensa a falta de entusiasmo (nas populações e nos responsáveis políticos) que este modelo assume. Se era vontade da autarquia desenvolver o OP em 2011 (como foi assumido pela Sra. Presidente da CM), mesmo com falta de tempo para o preparar, porque não ter em consideração projectos, acções e problemas assumidos pelas populações, por exemplo, no processo da A21L, esquecido e encostado, conforme se pode ver na ligação?

Considero que o fortalecimento da democracia necessita de uma participação pública efectiva; de parcerias e não do isolamento do poder. Acredito que a superação da crise passará muito por aí – ultrapassando a crise económico-financeira, mas antes disso a crise de valores e de ética.
A CM VFX tem exercido, com a sua prática, exactamente aquilo que os teóricos e os técnicos de Participação mais temem – substitui sustentável por sustentado e participativo por participado – contribui com obscurantismo institucional e desconfiança à necessidade de abertura das instâncias do poder.
Talvez, um dia, a imagem que apresento a seguir se materialize:
“Cidadania, mundo público aberto à discussão, alto nível de associativismo, relações de confiança e reciprocidade disseminadas na sociedade, relações individuais não segmentadas; para além do grupo social familiar e, finalmente, experiência de governo comunal, em que a participação popular é a tónica e a informação circula sem grandes barreiras, portanto, a custos não proibitivos: eis a descrição aproximada de uma comunidade cívica dotada de alto nível de capital social, em que provavelmente existe bom governo, bom desempenho institucional e, como consequência dos anteriores, bom nível de desenvolvimento económico.” (8)

O caminho de construção de uma democracia mais participativa tem, seguramente (até pelos exemplos globais da aplicação deste processo), desarmonias com o status institucional vigente. Deixo, aqui, ligações ao processo do OP de Belo Horizonte, no Brasil, do qual existe um interessante documentário realizado pelo português João Ramos de Almeida.
A crítica que faço ao OP de VFX não é um apelo à não-participação. Pelo contrário: contra a participação legitimadora da não-participação do “nós até temos OP”, é preciso que participemos em todos os momentos possíveis e que reforcemos a necessidade de aprofundar este e outros processos, para que não caiam, mais uma vez, no esquecimento cinzentista da gestão autárquica que a nós devemos. Para que VFX possa indicar, enfim, um caminho de futuro.

(1) MARTINS, Manuel Meirinho (2005), Governo Local, Participação e Cidadania – Entre o Cidadão Político e o Cidadão Consumidor, in: Mota, Arlindo (2005), Governo Local, Participação e Cidadania – O caso da Área Metropolitana de Lisboa, Vega, Lisboa, pp. 7- 16
(2) www.cne.pt
(3) CUNHA, Paulo Vieira da e Maria Valeria Junho Peña (1997), The Limits and Merits of Participation, Policy Research Working Paper, The World Bank
(4) LACOUTURE, Henri Bourrut (2006), Educación ambiental, participación ciudadana, desarrollo sostenible y Agenda 21 Local, III Jornadas de Educación Ambiental de la Comunidad Autónoma de Aragón, CIAMA, Zaragoza,
(5) DALAL-CLAYTON, Barry e Stephen Bass (2002), Sustainable Development Strategies: A Resource Book, OECD, Paris and United Nations Development Programme, New York
(6) http://pt.wikipedia.org/wiki/Orçamento_participativo
(7) http://www.op-portugal.org/noticias.php?id=868
(8) BONFIM, Washington Luís de Sousa e Irismar Nascimento da Silva (2003), Instituições Políticas, Cidadania e Participação: A Mudança Social ainda é Possível?, Revista de Sociologia e Política, número 021, Universidade Federal do Paraná, Curutiba (Brasil), pp. 109-123

sexta-feira, abril 29, 2011

Deixem jogar o Mantorras

Parti da hipótese da inexistência de heróis, como se todos os actos de coragem, abnegação, propulsores de uma motivação colectiva que nos levasse a transcender com as nossas acções a realidade que vivemos, não tivesse passado, ao longo dos séculos, de maquinações desenhadas num gabinete de uma agência de inteligência ou num convento qualquer, dedicados a manipular as nossas vontades e, como substrato, ter usado histórias inventadas de homens e mulheres cujos actos nunca ocorreram. A nossa História seria uma mentira e a humanidade, na verdade, não acrescentava qualquer valor simbólico ao conjunto biofísico em que nos inserimos – a vida não teria sonho e não teria esperança.

Parti daí. Mas quando chegava ao final, com artigo pronto a editar e orgulhoso da encenação intelectualizada que tinha criado, revi umas imagens do Mantorras e da notícia do seu abandono oficial, que deitava por terra qualquer formulação de tese que permitisse a aclamação da minha teoria. Às vezes esquecemo-nos: para um futebolista a carreira é curta e, na maioria das vezes (muito longe das luzes mediáticas), cheia de condicionantes, que vão das lesões à insolvência e insustentabilidade dos clubes. Esquecemo-nos: idolatramos quem resolve os jogos, quem ganha campeonatos, quem ergue as taças, mas os heróis do campo são os que sacrificam a sua vida e a sua saúde pela importância de estar em campo, de defender a sua camisola, por acreditar que, nesse sacrifício, há uma dimensão de libertação que transcende a dor.

Assim era o Mantorras, o homem. Há muito que sabíamos da sua inabilidade física, mas quem não vibrava com a alegria que tinha quando entrava em campo, o êxtase do golo que não raras vezes resolvia partidas, a ingenuidade doce do menino do bairro pobre de Luanda que nunca deixou de ser?
Porque ele merece e porque todos nós, mesmo quando não torcemos pelo Benfica, o merecemos, quero exigir: deixem jogar o Mantorras. Pelo menos mais uma vez. Aos futuros jogadores que fazem o União, gostaria que soubessem que o futebol que interessa é esse, feito de esforço, mas de superação, em nome da alegria maior de cumprir o futebol.

Cito Ary dos Santos, no Retrato do Herói, pensando no Mantorras, o herói:

“Herói é quem morrendo perfilado
Não é santo nem mártir nem soldado
Mas apenas por último indefeso.

Homem é quem tombando apavorado
dá o sangue ao futuro e fica ileso
pois lutando apagado morre aceso.”

Artigo publicado no Jornal UDV Nº 13 de Março de 2011

terça-feira, março 01, 2011

Um bom ano…




Já passaram uns dias deste mês de Janeiro e, inevitavelmente, estranho os “bom ano!” que visitas espaçadas me vão dando, como se fosse para mim irreal falar de liberdade fora do mês de Abril, ou em terra de touros e toureiros os bois tivessem sempre de ser chamados pelos nomes, ou o Natal, esse carrossel longínquo, não fosse, enfim, quando um homem (ou uma mulher) quiser. E, pois, desejar um bom ano a quem encontramos com tempo e capacidade de desejarmos bom ano - antes que eleições e crises financeiras façam com que o ano cumpra o que promete e deixe de ser bom -, deveria ser motivo de agradecimento, não de estranheza e zombaria.
Assumo esse erro de estranhar o que deveria receber como um abraço. Afinal, eu quero acreditar que este será um bom ano! Por dedicação… À esperança, à realidade, à vida…
E no União como no Ateneu, em A-dos-Loucos como em Paris (comparação estranha que li uma vez sugerida como ao mesmo nível de importância e que agora me faz todo o sentido), nesta Vila Franca que se quer diferente sendo-o cada vez menos, dizia, a esperança, a realidade e a vida evocam-me o Alves Redol, de quem se cumpre este ano o centenário do nascimento.
Nestas coisas de póstumas homenagens, quem cá está pega na mão de quem foi e devora-lhe o braço sem contemplações, o que multiplicando pelos que apertam mão e pé e o que puderem, cedo-cedo um homem (ou uma mulher) é devorado até à memória, quando a sua história e as suas acções se confundem apenas com os ossos que ficaram. Mas a obra nasce porque o homem (ou a mulher) quer - que se não a quisesse o sonho acabava ao acordar - e do Alves Redol mais do que as mãos dos que lhe apertaram a mão, temos as palavras que nos forjam numa forma de ser e estar, como se no União e no Ateneu, em Vila Franca e para onde formos, existisse algo dele, uma similitude genética em todos os que, de qualquer forma, percorremos as mesmas ruas.
Não sei se o Redol teve, em algum momento da vida dele, de se confrontar com uma certa “saudade da infância”. Talvez que, utilizando a expressão do Soeiro, dos “filhos dos homens que nunca foram meninos” não se conheça essa saudade… Ainda num destes sábados fui ao Cevadeiro ver a equipa de infantis e recordei-me do miúdo que fui quando pisava aquele campo. E esta recordação tive-a na mesma altura em que trabalhava sobre o Constantino do Redol (o guardador de vacas e de sonhos que eu acho comparável ao Principezinho do Saint ‘Exupéry e ao Ngunga do Pepetela, cada um à sua dimensão), como se ao crescermos tivéssemos a obrigação de nos confrontarmos com a imagem que tínhamos de nós quando tivéssemos a idade que temos. Nessa reflexão, como o Constantino, o miúdo que fui não gostava que não se fizesse a justiça devida a quem merece que essa justiça seja feita.
Este ano que já começou promete muitas injustiças. Mas, por ser um ano de centenário do nascimento do Alves Redol, talvez que esse mau destino possa morrer de repente… Talvez também porque a cidade onde viveu e as instituições que a representam (autarquias e colectividades) possam marcar este ano com um sinal claro de afirmação do que é justo – neste caso, uma homenagem que tenha o tamanho do homem e do que temos do que ele forjou!
Um bom ano para todos, então.

Artigo publicado no Jornal UDV Nº 11 de Janeiro de 2011

sexta-feira, janeiro 28, 2011

Elogio da União – Reflexões sobre o jantar

As encruzilhadas colocam aos indivíduos e às organizações que nelas se encontram dúvidas de estratégia e táctica posicional que, indelevelmente, definem o seu caminho. A sua sustentabilidade é posta à prova na forma como encaram essa situação - no impasse que antecede a decisão e no assumir as consequências dos passos tomados, no lidar com o de bom ou de mau advém dessa decisão.
Por sinónimo, encruzilhadas são também cruzamentos e entroncamentos, espaços de encontro e convergência.

O jantar do passado dia 7 de Dezembro, foi um momento de encontro duma e numa instituição com uma história e um património, especialmente o imaterial, que lhe confere uma identidade que é motivo de orgulho e razão de esperança. Os homenageados, mais ou menos mediáticos, reflectiram a importância de um clube e da cidade da qual é consequência, na saúde e na doença, em testemunhos emocionados e emocionantes da sua ligação à realidade que é a de todos nós, os que já suámos e suamos a camisola do União, para as vitórias, os empates (impasses?) e as derrotas. A encruzilhada em que o União se encontra, pois, embateu suavemente numa superfície de amizade e de afirmação de vontade de dar os passos necessários à prossecução deste caminho que é o sonho de várias gerações de vilafranquenses.
Se o estado a que chegámos provoca inquietações, a verdade é que quem esteve naquele jantar não presenciou um velório e, desse modo, estas palavras não formam um epitáfio, nem têm a razoabilidade cínica dos treinadores de bancada que fariam tudo de forma totalmente diferente mas que nunca fazem nada, nem sequer é um exercício entediante e esotérico cheio de um o-que-poderia-ter-sido que ninguém nunca tentou sequer dar hipótese a errar. Não, o União está vivo! No corpo que tem, o sangue corre e o cérebro discorre, há vontade, há reflexão, há discussão, há força, há esperança...

A estratégia, que subentende um objectivo a atingir, está delineada – materializar um clube competitivo a nível regional e nacional. A táctica, enquanto organização das transições de defesa e ataque em cada momento, merece solidariedade e apoio.
A gestão de um grupo de homens e mulheres, como a de um plantel, deverá ser feita de modo a potenciar os indivíduos, enquadrar esse potencial nos processos da equipa, mobilizar os que se equipam e os que apoiam da bancada. Só assim se consegue e faz sentido prosseguir as vitórias e atingir os objectivos.
Naquele jantar de homenagens solidificou-se uma equipa. E, nas diferentes valências, tarefas e ideias de cada um dos presentes, homenageou-se o elemento essencial e estruturante do que somos – a união. Outras crises tivessem a mesma resposta...

sexta-feira, dezembro 24, 2010

Como por uma lágrima do Rui Costa

Corria a época de 1991/92, quando na segunda mão das meias-finais da então Taça dos Campeões Europeus, o Marselha jogava contra o Estrela Vermelha de Belgrado e, na roleta russa dos penaltis que decidiria quem ia à final, Dragan Stojkovic, então jogador do Marselha, foi chamado a converter a grande penalidade – recusou-se a marcar contra a sua equipa do coração; na época de 1994/95, no jogo de apresentação do Benfica aos sócios, Rui Costa, então jogador da Fiorentina, marcou um golo e desatou a chorar. Conseguem visualizar estas imagens?

Em tempos de “frutas podres” e da mercantilização humana, esquecemo-nos frequentemente que são os actos de amor e de abnegação que elevam a figura dos indivíduos, mesmo dos mais profissionais e pretensamente isentos, e que definem a imagem que a História – essa brutal avaliadora de personalidades – mostrará de cada um de nós. Essa distinção não tem que estar associada a uma pertença a um clube ou instituição, mas à carga de intensidade que cada um coloca no que faz, sendo verdade que cada um é os actos que pratica e é por eles que será avaliado.

O que é que nos leva a abdicar do nosso conforto para mantermos a nossa estrutura moral, assumindo o direito à recusa ou curvando-nos ao perdão de quem, ainda que momentânea e simbolicamente, magoámos? A fímbria dos indivíduos não é a mesma, mas também por isso a memória colectiva selecciona naturalmente quem pode, ou não, ser recordado. Eu recordei Stojkovic e o Rui Costa pelo insólito emocional, como poderia recordar o Maradona a fazer manguitos na Bombonera ou o Cantona em golpes à Bruce Lee – todos eles, à sua maneira, apenas expressando um profundo amor a algo maior que eles, mas que os eleva para lá das paredes em que nos habituámos a vê-los – e que nos leva a olhá-los fora desses muros, fora dos seus percursos mais ou menos admiráveis, para lhes perdoar tudo em nome do mais que deram: a essência do futebol e da dignidade dos seus artífices e dos seus símbolos.

O ser-humano, mais ou menos racional, é sempre levado por paixões, por impulsos. São elas que definem o sentido, que marcam o momento. Mas a expressão visível - que é a paixão - reflecte (ainda que nem sempre da melhor maneira) a direcção do que nos define, o enquadramento - a longa paciência, segundo Vergílio Ferreira -, que é o tempo e o suor que dedicamos a algo, algo que somos nós, porque crescemos debaixo de um monumento, a ver actuar uma equipa, a comungar certos valores...
Recordo agora outra imagem: eu, à minha dimensão, a marcar com a nossa camisola e alegria um golo ao “meu” Sporting e, à distância destes mais de 15 anos, compreender a importância de ser do União. Algo que me enquadra e que eu não me sinto capaz de trair. De, com uma ligeira vaidade, me fazer pensar em segredo, muito cá só para mim: “Ali fui igual ao Stojkovic e ao Rui Costa!”.

Publicado no Jornal Nº 9 do União Desportiva Vilafranquense de Novembro de 2010

Os Públicos e a Cidade

"(...) Aqui na terra 'tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n' roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta (...)"

A citação acima é de uma música do Chico Buarque, “Meu Caro Amigo”. Pela lógica directa das palavras subentende-se uma transmissão de coisas que nem se podiam dizer aos amigos e que, por isso, o estado das coisas ditas não sai daquilo do que é óbvio, porque o poder quando é feito para alguns tende a censurar o poder do que está aberto a todos. E, no entanto, inteligentemente, dizem-nos que, lá, “a coisa” estava um breu de palavras cortadas e já ficamos a perceber o que se passa.

A arte, quando mal usada, pode ser opressora. O futebol, como arte que é, não foge à regra. E veja-se a sagacidade com que nos anunciam medidas austeras, assim daquelas de abrir mais buracos no cinto, quando o Benfica ganha o campeonato ou quando a selecção – ao menos ela – parece sair da crise... Aqui ainda podemos falar aos amigos distantes das cores que temos por aqui, mas as cores que nos mostram, bem, debutaram além do que nos contam!
Esta realidade não me faz entender que o desporto é estupidificante. Já compararam o Figo a um poeta do relvado, o Sporting dos anos 1950 era uma orquestra com cinco violinos, a Laranja Mecânica que foi do Cruyff já tinha sido um filme do Kubrick, para mim o tic-tac do Barcelona é uma encenação sem mácula num Teatro Nou perto de todos. Sim, o Cristiano Ronaldo custou um preço obsceno numa economia global em recessão, mas quanto custa um quadro do Picasso? Como dizia o outro: É a economia, estúpido! O facto da economia andar estúpida é outra questão, enfim... Com a mesma naturalidade com que sou inspirado por um quadro feroz, uma dança fluida, uma música harmoniosa, aquela malta que ali está a chutar a bola transmite-me emoções ímpares – tudo isso me faz sentir vivo e um tipo sentir-se vivo é o tradução mais palpável de liberdade e de esperança no futuro. E isso não me pode fazer mais limitado!

Vila Franca é a cidade que deu ao país uma arte que emerge das vivências de quem de Vila Franca era. Como isso não vale pouco, temos por mérito próprio o museu do Neo-Realismo que o atesta. Mas uma cidade não é só a sua história e o seu edificado – é a participação das populações e o apelo à sua criatividade que amassa o composto que faz as cidades pulsarem, que as projecta para lá das suas fronteiras territoriais, que as faz atraentes para os visitantes, que lhes granjeia notoriedade.
Eu não quero falar da crise, do aumento dos impostos, da falta de futuro, da falta de interesse... Olho à volta e vejo associações a sobreviver e a enfrentar os problemas, a mostrar trabalho feito, a construir oportunidades. Corações que bombeiam um sangue de envolvimento que nos fazem mais fortes, mais próximos do que poderemos ser.
O Teatro do Zero (passe a publicidade), sediado na nossa cidade, apresentou, há uns dias, “O Lugar Sagrado” de António Torrado, naquela que foi, digamos, a sua apresentação oficial. A caminho do teatro passei pelo Cevadeiro, à hora em que jogava o União – ambos estavam com muita gente. É disto que estava a falar! O que não estupidifica não enjoa e criar públicos é superar o estado da arte - se “a coisa aqui tá preta” cores destas não são demais.

Publicado no Jornal Nº 8 do União Desportiva Vilafranquense de Outubro de 2010