Num país sem inverno eu escreveria com menos frio. Pudesse escolher a minha nacionalidade e escolhia uma universal, na fronteira fluida entre Matanzas e Vila Franca de Xira. Aí comentaria como se veraneasse o que, política e artisticamente, me aprouvesse! A aferição da qualidade, dessa e desta, ficaria sempre - como ficará sempre - para as duas pessoas que me leem. Quem sabe, nessa fronteira, arriscaria escrever noutros formatos?
Assim, é o que pode ser até ser o que é.
Eppur si muove, ensinou-nos um homem que, ao espreitar pela boca da serpente, nos viu tão pequenos e transrotacionais como outra coisa qualquer que não seja o sol (e mesmo esse!); e ao nos ver assim, pequenos, nos fez dar passos pequenos em frente, ao ritmo dos passos de um coro alentejano, muitos passos pequenos pisando lentamente a terra como quem inicia grandes viagens.
Isto não acabou! A história está aí para quem a quiser ver. O futuro é o amanhã que espreitamos, por um buraco pequeno de uma reflex, com uma objetiva grande angular, para o vermos largo - já ao largo! - e não perdermos nada do que ele nos traz, nem deixarmos que alguém, outra vez, impeça que se faça futuro. E ainda virá a boçalidade, a descrença, a traição, a divisão - inquisições por homens e mulheres cheios da religiosidade do tempo. E virá quem não vê que os passos estão unidos e que o rumo se move. Ontem no entanto, hoje portanto.
Novos verbos com velhos símbolos. Cidades que ordenam ruidosamente o silêncio aos tribunos da austeridade, aos trambiqueiros, aos possessos do mercado, aos eunucos bem comportadinhos que querem deixar o lobo zurrar. Grândola Vila Morena cantada contra o medo - atirada de frente, como escudo e lança, contra a medievalização da terra. Tomem lá!
Grandolemos, Grandolizemos, Grandoloquentemos. Tiremos o retrato do futuro nesta Grandolangular! "O Povo é quem mais Ordena!"
Não procuro sair de cena, nem me aconchegar no silêncio. Podia só dizer isto e ficava assim, sem narração nem palco, mas há melodia desde que acordo - tons suaves, trinados gota-a-gota primeiro, que se adensam e nitidificam depois, até serem música completa, pauta exposta ao pensamento, emoções tipificadas no que de emoções vive quem se entrega a elas.
Há coisas que mais vale contar logo. Abrir portas à fala, mesmo que a soluços, mesmo correndo o risco que a música não nos saia da cabeça e sermos apanhados distraídos num ritmo que não nos identifica. Ridículo... Ridículo? Pelo menos não é perder tempo, quando vagueamos nos nossos discos e nas nossas cifras à procura da música que nos persegue, para a reconhecer no que somos e, mesmo assim, não nos identificarmos. Ou é perder tempo... Perder tempo a procurar.
Temos feito isso todas as sextas-feiras, quando nos colocamos debaixo do foco sem ensaio e toda a voz, dos agudos aos graves, estremece; todos os dedilhados saem na corda ao lado, criando estridências absurdas; ninguém do público nos presta atenção e nós queremos contar logo, contar tudo, tudo o que está à flor da pele e pede para ser partilhado; e humilhados, fracos e fracassados, nos retiramos até que a vontade de voltar seja mais forte que qualquer embaraço.
E a vontade volta sempre, não há como fugir, como na alegoria gasta do inseto contra o foco. E nós voltamos - iguais.
Há coisas que não vale a pena contar. Como fugir para procurar outro espaço onde a desafinação não entre. Acordam-nos e estamos longe, estamos nus e já não estamos. O mesmo ritmo, mesmo quando não nos identifica, ganha traços de personalidade - que choca com a nossa, heterofágica. A caixa da viola bate com estrondo no nosso joelho, potenciando um silêncio maior do que o não passarmos despercebidos. Procuramos, na ânsia da música, um tempo que não nos esfrie e, enfim, a harmonia que nos caraterize. E calamo-nos - é o nosso segredo! - porque não queremos assustar quem não se limitou a ver-nos passar.
Já saímos, a viola aos ombros na esperança de que alguma coisa se glorifique, já esquecemos o frio e as promessas que tivemos medo de fazer; bebemos algo e bebemos mais. A luz chama, a luz estica-nos a mão, mas agora é a sombra, é recuperar a sombra onde fomos intensos e deixar que um qualquer reflexo dourado não nos distraia.
Voltamos à luz. Ao palco, ao erro. Primeiro uma palavra e um tom subtil em Lá, como diapasão, onde afinamos a nossa disponibilidade. Há alguém que já nos olha, sem rancor - é para ela que não vamos voltar. Lembras-te do ensaio? Não há medo, em cada momento a ausência é corrigível e a narrativa segue o trajeto das declinações. Lembramo-nos do ensaio e estamos prontos a saltar, como no inevitável de nos termos encontrado sem mentira.
É como se já fosse sexta-feira e é um bom dia para sermos nós. Abre-se a cortina e:
Há no hábito da noite segredos em cuja narrativa se constroem quimeras. Dormir é uma maré de desperdícios e, nós, os sonâmbulos, temos mais sonhos para contar.
Podia só espremer as palavras do Ary, adicionar-lhes tons citáricos e evocar uma voz profunda. Depois mergulhava no Tejo e deixava que a corrente fizesse a noite por mim. Mas eu sou um homem na cidade com sonhos para contar. Sonhos de nós, amigos, que passamos pelas palavras com a displicência de amantes experimentados; sonhos de ti, mulher de hoje, que me evocas acordares tão mais sinceros; sonhos de mim, balofo de sonhos por cumprir, que adormeço sempre tão triste; sonhos dos homens e das mulheres tristes que na madrugada agarram estilhaços de motivação para cumprir um dia após o outro, a caminho do trabalho que lhes garanta um mínimo de esperança.
A minha vocação é sentir para contar. O meu trabalho é o que faço. E para me cumprir prescindo da especialização - cumpro a especialidade! Sentado, de madrugada, sem cinismos nem inveja, num banco em frente aos barcos de Cacilhas, na lota de Setúbal ou em frente aos comboios de Vila Franca. Frenéticos - porém dormentes - passam neles os que vão trabalhar. Vão, sem ir, sem vontade, sem tempo para voltar. Eu não faço mais nada, tenho todo o tempo para ficar aqui, sozinho, fermentado, como quem faz do que olha um pão de promessas e palavras, como quem procura uma história por contar. Mas sigo passos de segredos, simpatias de rotina - Ó sô Zé, dê-me uma bica rápido, para não perder este; Bom dia, D. Maria, estes bolos são de hoje? - silêncios que nunca mais irei ouvir.
Não tenho que me sentir culpado, ou digo para mim que não me tenho que sentir culpado, porque o meu dever é acabar-me para estar aqui - e sentir os que passam. Para contar. Num poema em que um homem na cidade absorve em si todas as palavras que nunca foram ditas, o aroma das flores que serão primaveras, a ternura das ruas que despertam enquanto o poema se deita acompanhado do acaso.
Eu sinto necessidade de olhar, solidário, os que vão trabalhar. Eu não durmo para os ver. E imagino ser cada um deles - mil vozes fazem a minha imaginação de raciocínios.
E volta a música como volto para casa. Um homem na cidade que vai dormir a cantar. Mas agarrado de medo, congelado da frustração do descanso. Com uma música na cabeça, cheia de rio, trabalho e palavras. Cheio de vontade de sonhar para investir.
Revelações de final de ano, em jeito de balanço. 1 - Adoro mandar. Em geral gosto de mandar com outros, democraticamente. Mas sou um ditador quando mando alguém à merda. 2 - O melhor café do mundo não é o de S. Tomé! O melhor do mundo são as crianças. 3 - Há pessoas que têm pobres de estimação. Os pobres deviam ter certas pessoas para estivação. 4 - Há dois dias que durmo mal, com pesadelos - é o subconsciente a pedir-me Mefaquin! Ou a voz do Passos Coelho a pedir-me para emigrar. 5 - Mais vale mil anas em privado que uma ANA privatizada! 6 - Todas as pessoas inteligentes deviam ter comportamentos símios uma vez por ano, para que todas as outras entendam que, afinal, as pessoas inteligentes são alcançáveis e entendem o sexo casual como uma coisa muito boa e não apenas no seu imenso potencial estético-sociológico! Seis revelações, sendo aqui o seis o inverso de nove, que quer dizer, cabalisticamente e em todas as línguas, novo, o que quer dizer que seis é velho.
Às vezes o frio - essa faca afiada - corta-me os nervos
sem piedade; frio, onde me encontro desprotegido, sem aparência de
consolo: exijo ao sol que exista. Aqui, abraçando o peito, avanço, sem
vontade de me reconhecer - ou reaquecer - sozinho.
Assim não consigo: Estar aqui não compensa. Não são só saudades, no vazio, que aqui sinto; é uma ânsia de suor - espontaneidade do suor - que
procuras respirar; ou miragem desolada, porque não? Resta-me viajar (para muito longe), ao cerne da mulher - Vem para mim...
Paro, prescuto silêncios, sonho com tantas distâncias! Retomo o caminho:
para longe do inverno frio, mergulho sem mar, onde me encontro; longe,
onde brilha o sol, e a noite é amor refeito - emaranhado de ondas nuas
-, e a aurora é ocaso, acaso sem tempo, pudor perdido: vem à viagem
comigo, ao sul. Como se quisesses.
Vivo à noite e, à noite, as cidades, mesmo as pequenas e suburbanas como a que moro - quanto mais as grandes capitais! - vão todas ao encontro da pena. Pena, como uma neblina, que arrasta a perda para lá da vida, como uma longa solidão feita de moinhos de vento que ousamos atacar sem tempo.
A noite traz memórias que julgávamos perdidas, transplanta em quem vagueia a genética dos espaços, os passos dados por quem passou por aqui antes, em noites frias como estas, indo para o trabalho ou saindo da tasca, indo para a tasca ou para encontro proibido - de política ou de amor -, sei lá, passos orgânicos de uma identidade que ninguém nem nada destroçava, feitos de uma juventude sem idade. Passos de quem estava, de quem, à noite, marchava contra a noite; de quem vivia e sonhava; de quem construia castelos de futuro com fundações de esperança. De quem destilava as palavras para as beber sem outro apego que não fosse o que pudessem trazer as palavras.
A noite é uma desolação só, acompanhada de tudo o que nos falta. O tempo passou pela minha cidade e, na paisagem, a cidade cresceu. E cresceu também e principalmente em sombras e silêncios. O sangue da cidade, esse, espessou no cal das suas artérias, amoleceu e agora conta divisas e já vomita o que ainda não comeu - dos que vieram depois, quem ainda está, adensa-se ou quer partir!
Na minha cidade reúnem-se, solenemente, para cantar e contar longas histórias antigas, amigos dos meus pais para quem o tempo foi sincero. Muitos deles é que não foram, mas isso são outras histórias que merecem ser contadas depois. O tempo traz-mos, de bandeja, para me rever neles. Não no silêncio, mas na alegoria do silêncio. E das sombras que nos perseguem. Mesmo cantando!
É justo que sintam essa dor comigo e com os meus amigos - fizeram muito, mas trouxeram-nos de volta ao sítio de onde partiram. Será também justo que resistam connosco, num matrimónio de gerações, ou que se calem para sempre.
(Relembrando Brecht: ”Os tempos modernos não começam de uma vez por todas…, o meu
avô já vivia numa época velha, o meu neto talvez ainda viva na antiga. A
carne nova come-se com velhos garfos. Épocas novas não a fizeram os
automóveis, nem os tanques, nem os aviões sobre os telhados, nem os
bombardeiros. As novas antenas continuam a difundir as velhas asneiras. A
sabedoria continuou a passar de boca em boca.”